3 de dezembro de 2020

Conheça Ser’tão – a artista por trás do mural da nossa loja matriz

Esta semana, nosso blog está mais do que especial! Apresentamos uma entrevista exclusiva com a designer, diretora de arte e muralista Ser’tão, autora do mural que agora colore a fachada da loja matriz da nossa Casa das Tintas. Nessa conversa, ela revela detalhes sobre suas inspirações, seu processo criativo e sua história com o sertão alagoano. Confira!

 

 

Quais sentimentos você esperava transmitir com este novo mural? Qual foi o ponto de partida?

 

O ponto de partida dessa obra era fazer um pássaro mulher, um pouco inspirado na cultura egípcia, que costuma misturar cabeças de aves com corpos humanos. No entanto, depois eu acabei modificando o projeto, porque percebi que o mais importante seria que ele fosse alegre e feliz, principalmente por conta do momento que estamos vivendo. Quando a Casa das Tintas entrou em contato comigo, a gente estava no meio da pandemia, e eu só pensei em transmitir leveza e alegria. Eu queria que, quando as pessoas olhassem a obra, elas tivessem um respiro dentro do coração delas, que aquilo gerasse um sentimento acolhedor.

 

As flores de antúrio, que o pássaro carrega com ele, remetem à hospitalidade, iluminação e fortuna, elas têm um significado bem feminino. E a intenção era essa: transmitir uma mensagem de amor, alegria e acolhimento.

 

O mais curioso é que eu sempre quis pintar esse muro. Desde a primeira vez que o vi, me enxerguei ali, pintando. E com o convite da Casa das Tintas, que ainda me deixou livre para criar, fiz uma coisa que estava dentro do meu coração, deixei a intuição falar mais alto.

 

Conte um pouco sobre a sua identidade como “Ser’tão Encantado”. Como ela surgiu, com quais objetivos ou perspectivas?

 

A identidade Ser’tão surgiu da necessidade de me desvincular do arquétipo social de nome e sobrenome. Eu queria algo que falasse mais sobre essência do que sobre aparência. E quando eu viajei para a Ilha do Ferro, voltei pensando em uma forma de falar sobre o sertão, com o propósito de mostrar a riqueza dessa região. Naquela época, a Ilha do Ferro ainda era pouco conhecida. Por muito tempo os artistas locais foram explorados, não tinham reconhecimento, o espaço não era enaltecido, mas hoje, felizmente, isso já mudou.

 

Assim que voltei, quase nove anos atrás, tudo que eu queria era mostrar como o sertão é lindo, cheio de arte e cultura, que não é só seca, sabe?! Um dia eu estava fazendo um trabalho, junto com um amigo arquiteto, e começamos a conversar sobre essa experiência que tive e, de repente, chegamos a este nome, que traduz a minha visão sobre o sertão, o encantamento que eu senti quando estive lá. Aí eu fiz a separação da palavra “ser-tão”, para ter esse sentido do “ser”, ser essência, ser sertão. Essa também foi a melhor forma que eu encontrei de levar o nome do sertão de uma forma alegre para o mundo. O sertão é uma coisa boa, não é só tristeza e morte.

 

Como o cangaço se tornou uma das principais inspirações para o seu trabalho? A Ilha do Ferro também costuma estar presente?

 

O cangaço faz parte da minha vida desde criança. Meu avô foi muito importante nesse processo, porque foi a primeira pessoa que me apresentou esse universo: ele me deu um livrinho de xilogravura de presente, que contava a história de Lampião. E Lampião, na verdade, era um grande estilista, ele era quem confeccionava todas as indumentárias do bando, todos os detalhes, da costura ao bordado, passando pelo tratamento do couro. Então tudo surgiu daí, desenvolvi uma paixão pelas indumentárias do cangaceiro, principalmente porque são eles próprios que confeccionam suas peças. E desde criança comecei a confeccionar as minhas peças, a desenhar, costurar e reinventar, juntando roupas de um e de outro, do pai e da mãe.

 

A Ilha do Ferro se tornou um cenário acolhedor de algo que eu já sentia. A viagem até lá só reforçou minha paixão pelo sertão. Eu fiquei encantada com a forma como os artistas locais vivem, enxergam a natureza e a cultuam. O trabalho deles é todo inspirado no que é natural daquela terra. Eles talham a madeira, trabalham com raízes de árvores que morrem na seca, têm todo um ritual sagrado para isso. Essa forma pura e genuína com a qual eles lidam com a natureza, a reaproveitam e transformam em arte é realmente uma das minhas maiores inspirações. A alegria que eles têm, a pureza do olhar daquelas pessoas, a forma como fazem arte com alma e coração.

 

 

Como é o seu processo de criação? Você já começa com ideias pré-concebidas, ou o projeto vai tomando forma/mudando à medida que é desenvolvido?

 

Meu processo criativo é muito intuitivo. Até costumo dizer que não sei desenhar. Porque eu não penso, a minha intuição é muito a minha orientação neste momento. E sim, normalmente o projeto muda muito ao longo do processo. Eu sempre acho que ele melhora quando sai do papel e vai para o muro, porque a medida que a gente trabalha em cima da arte, ela vai se desenvolvendo, vai crescendo, vai ficando mais legal. Quando eu tenho um cliente, procuro entender a atmosfera do negócio, visitar o local… Mas, no caso desse projeto, a Casa das Tintas me deixou livre para criar e segui apenas a minha intuição.

 

Existem outras inspirações ou artistas que te guiam, principalmente na composição dos murais?

 

Sim. Eu fui morar em São Paulo, na Vila Madalena, justamente para pintar um mural. O muralismo era uma coisa que eu já “ensaiava” em Maceió, mas de forma despretensiosa. Aí, a partir desse trabalho, eu tive a oportunidade — e a sorte — de encontrar com grandes grafiteiros do cenário brasileiro, de fazer amizade, de presenciar o momento em que pintavam. Foi daí que comecei a partir mais para o muralismo, inspirada nessa atmosfera da Vila Madalena e nos grafiteiros que conheci lá, como Boleta Bike, Speto, Tarik, “Milokais” dentre tantos artistas incríveis.

 

Na sua opinião, como este trabalho para a Casa das Tintas se insere neste contexto maior de “democratizar a arte”, tão presente no seu trabalho com murais?

 

A Casa das Tintas sempre me apoiou, desde a Caravana Ser’tão Encantado, quando fui para o sertão pintar murais urbanos e fizemos um documentário sobre. A partir do momento em que a Casa das Tintas apoia e incentiva artistas, eles estão democratizando a arte, porque dão a possibilidade da gente executar nossos trabalhos. Tem vários muros meus pela cidade, e muitos deles fiz com apoio da Casa das Tintas, mesmo sem isso estar diretamente claro.

 

 

Para saber mais sobre a intervenção da artista na fachada da loja matriz da Casa das Tintas, acesse aqui.

 

Conheça mais da Ser’tão nos links abaixo:

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